View Colofon
Original text "Venirea" written in RO by Alexandru Potcoavă,
Other translations
Mentor

Manuela Zamith

Proofread

Paulo Capinha

Published in edition #2 2019-2023

O regresso

Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Alexandru Potcoavă

As coisas descarrilaram em agosto, num domingo de manhã, quando os primeiros transeuntes da Place du Parvis Notre-Dame, empregados dos cafés da zona, viram o objeto, algo como uma bala gigantesca assente no solo com a ponta virada em direção à catedral e a parte traseira na direção da esquadra de polícia. Numa primeira estimativa, o projétil media por volta de vinte metros de comprimento e cinco de diâmetro. Os empregados de mesa e de bar aproximaram-se com curiosidade, deram uma volta, encolheram os ombros e foram abrir os restaurantes. Isto foi por volta das sete.

Por volta das oito, os padres e os acólitos, que chegaram para a missa, ficaram atrapalhados diante dos portões e esfregaram os olhos.

— Mas então o que é isto? disse surpreso o bispo e foi em passo miudinho em direção ao estranho objeto que tinha pousado durante a noite no meio da praça. Entretanto o sol que se tinha levantado, fazia-o brilhar, resplandecente.

— Seria por acaso o bastão de luz que conduziu Moisés pelo deserto? propôs um dos fiéis que se tinham juntado.

— Acha? ficou surpreso um outro.

— Acho, claro.

— Não, não. Acreditam que isso é o guia divino dos judeus no êxodo? Aquele da Bíblia?

— É possível, pensou o fiel.

— Bem. E o que está aqui a fazer?

— É um sinal do Ceú! A nossa viagem na terra acabou e chegou o Último Dia. Sinto que, a qualquer momento, poderá abrir-se uma porta e por ela aparecerá Jesus, que nos dirá para subirmos, porque somos nós os escolhidos para sermos levados diretamente para o Paraíso.

— Depois, vai desencadear-se a guerra do fim do mundo e o planeta será queimado, com todos aqueles que ficarem – os adeptos da Besta, sussurra o chefe do clero. Bem, mas quem é o Anticristo?

— Isso ainda importa?

— Pois, disse o bispo e decidiu dizer a missa lá fora.

Os acólitos apressaram-se a trazer-lhe o que era necessário e sua excelência reverendíssima abençoou e defumou com incenso o projétil divino para o qual só se podia olhar com óculos de sol. Os fiéis começaram a perceber o que se passava e todos eles se ajoelharam. Atrás deles, as primeiras vagas de turistas, correram para tirar fotografias. Algumas dúzias de japoneses subiram à estátua equestre de Carlos Magno para ver melhor através das objetivas das câmaras de filmar. Estavam em êxtase: os seus amigos, que tinham visitado Paris antes deles, não tinham encontrado nada assim e tinham-se gabado de ter apanhado tudo no filme, desde a Torre Eiffel até ao último modelo de caixote de lixo.

Às nove horas, a praça diante da catedral de Notre-Dame tinha-se enchido de gente como nunca antes acontecera. Os fiéis chamaram pelo telefone os familiares e conhecidos, dezenas de televisões tinham-se instalado e tinham entrado em direto, a polícia esperava ordens superiores, os bombeiros tinham ligado quilómetros de mangueiras às bocas de incêndio e esperavam alertas, caso algo pegasse fogo ou se fosse necessário dispersar a multidão, os médicos e os enfermeiros do Hôtel-Dieu estavam preparados para intervir com macas e perfusões e os doentes que se encontravam no hospital tinham ido às janelas tentando adivinhar alguma coisa por entre os ramos dos castanheiros. Escassas hipóteses.

Quando o serviço religioso católico acabou, um grande grupo de cidadãos com chapéus avançou, seguindo o rabino. Os judeus abriram alas com os cotovelos e chegados junto ao objeto começaram a saudá-lo com muitas e profundas vénias. Do outro lado, os muçulmanos avistaram um lugar, estenderam os seus tapetes de oração e prostraram-se com as caras no chão. Enquanto isto, o bispo tinha sido assaltado por repórteres, a quem explicava aquilo a que todos ali assistiam, ou seja, o mais provável, a segunda chegada do Redentor.

— Compreendo, disse um homem com um microfone. Mas porque não escolheu o Vaticano? Ou Jerusalém?

— Sabe-se lá? sorriu o bispo, orgulhoso e um pouco mais enigmático do que o necessário.

Por volta das onze, tinham-se formado alguns cortejos que tinham penetrado com dificuldade, após longa insistência, até junto da embaixada celeste. Eram ortodoxos, protestantes e neoprotestantes que tinham ouvido na televisão o que se passava no coração de Paris e não podiam perder esse momento.

— Acredita que o Filho do Homem vai descer hoje para o meio de nós? apressaram-se os repórteres para o rabino.

— Porque é que querem saber? cortou-lhes ele o avanço e desapareceu.

— O que é que esperam desse encontro? confrontaram os jornalistas o imã.

— Vocês vão ver, sorriu ele ligeiramente e regressou para junto dos seus.

— Alguns iluminados diziam que a chegada do Messias seria algures no Leste. Mais precisamente na Roménia. Eis que Ele pode estar aqui, mesmo, agora. Como comentam isso?

— Não estou aborrecido, assegurou-lhes um padre ortodoxo entredentes. - A capital da Roménia é chamada de Pequena Paris, mas como tantos romenos se encontram aqui, ao lado do Sena, não me surpreende que até Ele tenha confundido as cidades, tal como todas as superestrelas mundiais dizem Budapeste em vez de Bucareste. Portanto podia ter sido ainda pior.

— Portanto, Jesus é igual a uma superestrela?

— Claro! intrometeu-se um neoprotestante. - Têm dúvidas? Ainda bem que tiveram certezas quanto ao John Lennon ou ao Michael Jackson! Deixem-se estar, vão esclarecer isso muito em breve.

— Voltem às vossas casas e descansem para um novo dia de trabalho, disse calmamente o pastor protestante. - Nada vai acontecer. Aquele objeto é um gadget, e Deus não pode caber numa coisa assim.

— Caros cidadãos, conclui um professor da Sorbonne. - Bati com o dedo nessa coisa, ouvi-lhe o eco e isso confirmou-me as suspeitas. Por isso quero assegurar-vos do seguinte: a transcendência está vazia! Portanto tudo depende só de nós.
Quando chegou a hora do almoço, a Ile de la Cité tinha-se afundado quase um metro por causa do peso das dezenas de milhar de pessoas que a enchiam, transmitindo de boca em boca os últimos rumores e novidades que vinham das primeiras filas. Os representantes do clero de várias confissões partilhavam o acesso direto ao venerável projétil, guardando-o bem para que se fizesse o possível para que não fosse tocado pelo povo. As missas e orações decorriam ininterruptamente, o fumo do incenso subia por todos os lados em direção ao céu. A cidade tinha paralisado, esperando que acontecesse o milagre. Nos cafés oferecia-se de graça, os cigarros passavam entre pessoas próximas, os mendigos dos alucinogénios bebiam da mesma garrafa que os nativos sem-abrigo, as fronteiras entre religiões, nações, orientação política e estatuto social tinham-se anulado pelo menos por precaução.

O almoço passou para depois do almoço e ele por sua vez passou para o fim do dia. A tensão crescia com qualquer palavra ou opinião espalhada através do telefone sem fios da multidão. As televisões tinham instalado alguns ecrãs gigantescos em várias esquinas, que apresentavam a transmissão em direto. As pessoas estavam com um olho na televisão e o outro nas câmaras que passavam perto delas, gritando quando os operadores de câmara dos carrinhos de emissão passavam as suas imagens. Sabiam que estavam a ser vistos pelo mundo inteiro, por isso acenavam ininterruptamente com convicção.

Ao fim do dia, o espetáculo público foi interrompido pela aparição nos ecrãs de um indivíduo de fato, que fez a monótona leitura de um comunicado. Representante de uma conhecida empresa de produtos médicos, o senhor de gravata começou por pedir desculpa pela confusão criada, depois esclareceu que o objeto situado frente a Notre- Dame não era mais do que publicidade, não-convencional, é certo, mas completamente inocente, ao mais novo supositório lançado no mercado e convidou toda a gente a experimentá-lo. O PR saiu da emissão acompanhado por uma vaga de vaias. Desanimadas e desapontadas, as pessoas desistiram de esperar por alguma manifestação imediata da divindade, mandaram o ecumenismo, definitivamente ou pelo menos até à próxima ocasião, dar uma grande volta e foram para casa. Em pouco tempo, a ilha regressou completamente à superfície e a praça da catedral esvaziou-se quase por completo. Os padres retiraram-se embaraçados, e por um lado contentes, porque de todo esse transtorno, ficaram mesmo assim com um ensaio geral de sucesso. A grandiosa bala ficou ao dispor dos transeuntes e dos apaixonados, que se apressaram a escrever a marcador os seus nomes na superfície lisa e escura. Em breve, o seu lugar foi ocupado pelos adeptos das teorias da conspiração, convictos de que tudo isso é uma mentira do governo e de que alguma coisa se deve esconder lá dentro. Ficaram de vigília algumas horas junto ao objeto, mas, visto nada acontecer, foram-se deitar porque no dia seguinte era uma segunda-feira ou melhor dizendo um novo dia de trabalho feito ao serviço da oculta judaico-maçónica universal.

Perto da meia-noite, na praça deserta sob a lua cheia, a polícia trouxe um camião e duas gruas, para carregar o projétil esvaziado de significados extramundanos e levá-lo dali. Os trabalhadores tentaram prendê-lo com alças quando ele, de repente e autónomo, se elevou do passeio, levitou algum tempo sobre a cidade e desapareceu sem rasto no céu. Depois disso, as equipas de limpeza entraram em ação e as coisas voltaram mais uma vez ao normal.

More by Cristina Visan

Trilogia do sexo errante

Diante do portão da tia Nicoleta havia muita gente vinda para acompanhar o tio Titi no seu último caminho, o tio Titi que, embora gostasse da pinga, era gente boa, alegre, grande azar para a sua mulher, gente nova, nunca se sabe o que Deus traz, mas a sua mulher cuidou dele, todos os dias lhe punha uma compressa fria na testa, e até o levou a todos os médicos, e olhe que até neste momento, o faz com muito esplendor, vide o caixão de que madeira boa, bordo parece-me, e como trouxe mulheres para cozinhar durante três dias para o banquete de despedida, e foi sozinha ter com o padre Cristea e bate...
Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Cristina Vremes

Sónia levanta a mão

Por estes lados, as pessoas são muito desconfiadas. Mas não se sabe se noutros sítios a iriam receber de braços abertos. As pessoas do lado dele. Os do outro grupo. Não conhece, no círculo dela, casais das gerações anteriores, em que os dois sejam amigos, e não inimigos, mesmo que fiquem juntos até à velhice. Algures no mundo talvez existam os que ainda ficam amigos a vida toda e para além dela, mas são poucos, extremamente sortudos e bem escondidos aos olhos dos outros, de tal forma, que, olhando à tua volta, tu, jovem, possas estar quase convencido de que quem está ao teu lado chegará a dest...
Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Lavinia Braniște

O zumbido

No comboio, na última parte da viagem, tinha visto pela janela pegajosa as bordas do céu. Levantou-se para ver também do outro lado da carruagem e aproximou-se do homem adormecido com a cara escondida atrás do cortinado e com a mão direita firmemente pousada na pequena mala de viagem, que estava no assento ao lado. Sim, da sua janela via-se o mesmo. Um cobertor compacto, azul índigo, num plano paralelo ao campo extenso, cheio de molhos secos. E na sua orla, um azul aberto e claro, como um mar afastado, suspenso entre o céu e a terra. Por cima da camada índigo, estava sol. Quando se levantou,...
Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Lavinia Braniște

O reencontro

Já chega. Arrumei as malas, o fato na capa, a calçadeira de sapatos e entreguei a chave. Até casa tenho de conduzir durante seis horas, mas o caminho de regresso é mais curto. Abri a janela e, com a cabeça de fora, atravesso cada vez mais rápido a avenida principal da cidade. No fresco da noite e da velocidade, o ar corta-me a face e isso recorda-me a aspereza da esponja desmaquilhante. Tenho uma tez sensível e não suporto com facilidade o tratamento que os apresentadores do noticiário têm de fazer para não se parecerem com uma lua cheia de brilho – é-lhes aplicada uma camada de base em pó, qu...
Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Alexandru Potcoavă

Alguns minutos à deriva

O dia começou mais cedo do que tinha pensado. Tinha posto o alarme para tocar às 5.56 por várias razões. Queria ter tempo para a meditação matinal e também, para poder aguardar trinta minutos que o comprimido que melhora as funções da tiroide fizesse efeito antes do café, e depois, começar uma série de exercícios que combinam o queimar das gorduras com a tonificação dos músculos, usando somente o próprio peso, sem esquecer, entretanto, de ligar o esquentador elétrico, porque o aquecimento da água leva umas quatro horas, o que me dá tempo de sobra para acabar também a sequência de ioga para ab...
Translated from RO to PT by Cristina Visan
Written in RO by Cristina Vremes
More in PT

Mas a casa ainda mora em mim

Um batismo. Um novo começo. Uma capa preta por cima dos meus  ombros, como um manto cerimonial. Ela pega na minha cabeça e inclina-a,  cuidadosamente, para trás. A água parece muito mais suave do que a água  do meu duche em casa. As suas pontas dos dedos massajam o meu couro  cabeludo. A minha cabeça. Esta minha cabeça. Esta cabeça sem a qual não posso viver. Esta cabeça pesada. Esta cabeça que se anuncia. Esta cabeça em  que pensamentos. Sempre pensamentos sem aviso prévio. Pensamentos  que nunca cessam. Fecho os olhos e tento imaginar que, juntamente com a  minha cabeça, ela também massaja o...
Translated from NL to PT by Pedro Viegas
Written in NL by Maud Vanhauwaert

Finalmente tens um quarto só para ti

Estou desconfortável, mas sem arriscar mexer-me para não te acordar.  Alongo as costas e atenuo a moinha. Estou meio sentado na borda da  cama, deixando o colchão à tua disposição. Caíste num sono profundo e  aproveito para te afagar os cabelos com meiguice. Não gostas que o faça  quando estás acordado.   Era no sofá que me desforrava. Nos momentos em que quase  adormecias, embalado por um dia de correrias e brincadeiras, punha-te a  ver desenhos animados. Nessa altura, enchia-te de cafunés. Aceitavas os  meus mimos por estares num estado de semiconsciência. Deixavas-te estar,  chuchando ruido...
Written in PT by João Valente

A evolução de um dente do siso

Mais 47 noites O assistente do dentista tira o gancho da minha boca. – Está a ver isto? – pergunta quase com orgulho. O gancho está coberto com uma camada de saliva acinzentada. – Isto saiu da bolsa. É uma palavra estranha para designar um buraco entre a gengiva e um dente do siso. Uma bolsa parece uma coisa grande, onde se pode guardar chaves, e talvez até gel para as mãos ou um telemóvel. Tudo o que está dentro da minha bolsa são restos de comida triturados com alguns meses. O dentista aparece pouco depois e aponta para o meu maxilar no ecrã do computador. O dente do siso inferior do ...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Alma Mathijsen

A ranhura do zangão

O dia zero  Os seus dedos deslizaram quase automaticamente até ao telemóvel, que pousou ao pé do prato da sopa. Não que esperasse que no ecrã aparecesse algo excitante, mas os velhos hábitos são difíceis de esquecer... De cada vez que veio passar alguns dias a casa, preferiu desativar a aplicação web de encontros. E ainda não saberia dizer se o fez por si se pela sua família – dado que se sentia desconfortável em deixá-los embaraçados –, ou se o fez para se proteger do desconforto de segunda mão: não suportaria que por entre os perfis avistasse as nicks deploráveis e as lamentáveis e meio dis...
Translated from SL to PT by Barbara Jursic
Written in SL by Agata Tomažič

Jericó

Parte I – A Quinta [...] I [...] A quinta, como lhe chamavam, erguia-se solitária num planalto no cimo de uma colina baixa. Era uma casa rural com dois pisos, uma construção de madeira, retangular, estreita e comprida. Do janelão do piso superior, sentado na cadeira de balouço, no corredor, Jens observava o campo que se estendia para lá do rio. Os seus pequenos olhos pretos não paravam de se mexer, explorando o horizonte envolto na escuridão, atentos a qualquer pormenor suspeito. Elia e Natan estavam sentados no chão, ao seu lado, a brincar com carros em miniatura enferrujados. Ouvia-se ...
Translated from IT to PT by Vasco Gato
Written in IT by Fabrizio Allione

Esmeralda da depressão

ESMERALDA Velas, em vez de candeeiros. Baldes, em vez de bidés. Abortos acidentais, legais e com fartura. Era a Idade Média e dava-se mais um parto caseiro. Feliz, nasceu luz e tratava-se da primeira menina com olhos azuis. A primeira vez, nascidos na terra, por debaixo do céu celeste, oculares tons do que está por cima, e não por baixo. O primeiro milagre da estética, os olhos castanhos e/ou pretos do reino nunca tinham visto nada assim. A senhora veio à rua. Trazia hortaliças biológicas numa mão, o recém-nascido na outra. Queria chegar à Igreja para mostrar aquilo, talvez o padre soubess...
Written in PT by Luis Brito