View Colofon
Original text "Een lichaam opzetten" written in NL by Nikki Dekker,
Other translations
Proofread

Paulo Capinha

Mentor

Arie Pos

Published in edition #2 2019-2023

Empalhar um corpo

Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Nikki Dekker

Debaixo da nossa pele há mundos inteiros. Se é que se pode confiar nas ilustrações. Às vezes não tenho a certeza. Agarro na minha clavícula. Fica toda espetada para fora quando encolho os ombros. Faço isso muitas vezes. A clavícula é um ossinho sólido mas fino. Podia parti-lo. Talvez não com as mãos nuas, mas se lhe desse uma pancada com um objeto pesado, com aquela estátua de pedra maciça, por exemplo... Aí era de certeza. Não é preciso muito para acabar com tudo. Basta engasgarmo-nos uma vez e já está. Para onde é que vão os bocados de comida que entram no canal errado? Além das amígdalas penduradas no fundo da minha boca não consigo ver nada.

Estou deitada no sofá, com o computador quente em cima da barriga, demasiado quente, no fundo, e vejo os meus dedos que estão a escrever isto, mas quem me diz que são os meus dedos? Olho para as minhas mãos e parecem-me demasiado afastadas do corpo. Aí um metro e meio à frente. Mas os meus braços não são assim tão compridos. Com a mão direita toco na minha sobrancelha. Consigo fazer isso. Metro e meio, se não for mais, vencido de uma vez só. O meu braço é elástico? Enquanto penso nestas coisas, há uma outra parte de mim que observa à distância e que diz: “Pronto, agora é que estás mesmo maluquinha, não é?”

Olha à tua volta e diz-me mais uma vez que tudo isto é devido a um desequilíbrio químico dentro do meu cérebro. Olha para os fetos que vão ficando castanhos e se encaracolam sob a enésima onda de calor; os zângões que adoecem com os inseticidas que quarenta anos mais tarde ainda estão no solo; os frangos que fazemos deslizar pela fábrica fora, pendurados em ganchos, de cabeça para baixo, como se fossem troféus numa feira; os homens de bata branca que lhes cortam rotineiramente o pescoço; as pessoas que se escondem em caves quando ouvem novamente o barulho de mísseis; aqueles que vão à rua com cartazes cortados de caixas de cartão: Nunca se esqueçam que mobilizam blindados, helicópteros, soldados e armas de fogo, não contra os barões da droga mas contra a própria população; aquele que grita “É a minha filha! A minha filha!” ao polícia imperturbável que segue o seu caminho como se não tivesse ouvido nada.

Entretanto o meu computador zumbe em cima da minha barriga. Desde o golpe de estado, há três meses, o exército de Myanmar assassinou mais de setecentos civis. Durante protestos na Colômbia foram mortos em duas semanas trinta e sete manifestantes por agentes de polícia. É 9 de maio de 2021. Em Israel festeja-se o Dia de Jerusalém, o que significa que na rua se gritam slogans anti-árabes e que se assalta uma mesquita. “Estava bom tempo hoje”, diz o presidente da câmara de Lampedusa onde, no espaço de um dia, chegam mais de mil e quatrocentos migrantes. Toda a gente entra na minha sala pelo ecrã. Não sobra uma única cadeira. A distância entre o que sei e o que posso alcançar com as mãos é demasiado grande.


Em adolescente vivia de calças de poliéster em tons pastel: verde-clarinho, azul-clarinho, cor-de-rosa-clarinho. Quando comecei a sangrar, tive de manter a presença de espírito. Foi o segredo que fez de mim uma mulher. Assim que isso se tornou visível, tornei-me um monstro. Ao remexer os armários da casa de banho encontrei um pacote de tampões da minha mãe, formato Super. Isto é que era a sério. Não eram aqueles meus Minis infantis com desenhos de florzinhas no plástico.

– Esses não são para ti – disse a minha mãe. – São para mulheres adultas que já tiveram filhos.

Ela não compreendia que havia algo de abjeto dentro de mim, que eu devia esconder custasse o que custasse. Comecei a roubar os Super, um de cada vez, e guardava-os para ocasiões importantes: aula de ginástica, campo de férias de verão, nadar com as amigas na piscina ao ar livre. Não acredito que ela se tenha apercebido. Até que estava uma vez à noite na casa de banho e, depois de colar o penso nas cuecas, puxei pelo cordelinho do tampão e não aconteceu nada. Puxei mais uma vez. Estava firme como uma parede. Algo dentro de mim estava preso e não queria relaxar.

A minha mãe estendeu uma toalha no chão de ladrilhos. Deitei-me de costas, com as plantas dos pés no chão e os joelhos dobrados, bem afastados
um do outro. Estava deitada como ela tinha estado deitada catorze anos antes, quando outra pessoa olhou para dentro das pernas dela para ver se a minha cabeça já estava à vista. Agora a parte de trás da minha cabeça estava apoiada na fria tijoleira cinzenta. A minha mãe agarrou a minha pele, puxou-a suavemente para o lado e para cima, mas nada.

Uns minutos depois, vestida com umas calças largas de jogging, estava sentada no lugar do passageiro, a caminho do hospital. A cada lomba da estrada, gemia de dor. Na sala de espera da Urgência cruzei as pernas.
Ninguém devia ver o que se passava dentro de mim. Folheei umas revistas femininas amarrotadas. Dietas, roupa, música pop, posições de sexo.

– A senhora?

– O médico era jovem e bonito e tratou com muita sensibilidade a situação delicada em que me encontrava. Um pouco de sensibilidade a mais.

– Diga-me se prefere que seja uma médica a vê-la – disse. – Tem a certeza que está pronta para isso? Dói? Quer que paremos um pouco?

Eu só queria que ele tirasse aquela coisa de dentro de mim. Às vezes volto a sentir isso. Que está dentro de mim uma coisa que tem de sair.


– Ontem, com El Gordo no ginásio, voltei a ter essa sensação – diz J. Balvin. Estão a fazer um documentário e seguem o artista reggaeton durante uma semana.

– Pensei: bolas, lá começa outra vez esta merda. Como se não estivesses aqui. Como se não estivesses no teu corpo. Lá fora, está tudo bem, mas na tua cabeça não. Por que é que eu sinto esta merda toda?
O músico fala abertamente sobre a sua juventude, os seus demónios e a sua total falta de interesse na política.

– Não sou de direita, não sou de esquerda, sigo sempre em frente. - Sem saber, faz suas as palavras de um político neerlandês mal afamado. A política não lhe interessa, repete. Como se a dor nascesse por si na sua cabeça e ele não a inspirasse quando anda pela rua, onde o pavimento ainda está molhado dos canhões de água e o cheiro do suor dos manifestantes ainda paira no ar.

Esquina a esquina, de ahí nos vamos, el mundo es grande, pero lo tengo en mis manos, canta J. Balvin. Ponho a música tão alta que não consigo ouvir mais nada, fecho os olhos e empurro a pélvis para a frente e para trás.

A meio do dia, quando o manto cinzento me cobre os olhos e os meus bichos-carpinteiros começam a arranhar-me o interior do peito, há só uma maneira de aguentar: o dembow. É o bum-chi-bum-chi pelo qual se reconhece o reggaeton. O batuque foi de África para o Panamá e Porto Rico, através dos escravizados e migrantes, e agora homens de cor clarinhos como o J. Balvin ganham milhões com isso. Mais vale não pensar muito nisso, é um labirinto de relações de poder de onde não se sai. Sem dar por isso, já se fica presa.

É como a gripe: quando temos saúde, não conseguimos imaginar como é estar doente, mas quando caímos de novo na cama, com vómitos e febres altíssimas, sem conseguir mexer um músculo, pensamos: pois, esta merda é assim! E já não nos conseguimos lembrar como era quando não tínhamos dores. Descreve-se a depressão como um nevoeiro, uma carga de água, uma sensação que desce sobre nós e se sobrepõe a todas as outras emoções. Sim, aquele buraco negro. Sim, o vazio. Como se estivéssemos enfiados debaixo de terra, à espera, no frio húmido, de ganhar as forças necessárias para esgravatarmos um caminho de saída pelo relvado acima.


Tenho na mão uma chávena de café de autómato e estou sentada na minha mesa de trabalho, na segunda fila da sala de aula. Ao meu lado está um estojo preto com fecho éclair, fechado. À minha frente, em cima de um jornal aberto, uma toupeira morta. As suas patas pendem moles por cima de um artigo sobre o Banco Central Europeu.

Alguém liga o projetor.

– Bem – diz o senhor Raposo. – Para começar, agarrem todos no bisturi e vão cortar, cuidadosamente, desde o ponto por baixo do pescoço, acima da caixa torácica, até abaixo, até ao ânus. Atenção: é preciso exercer alguma pressão porque a pele é rija, mas se se fizer pressão a mais, corta-se até aos intestinos e o resultado é um monte de porcaria.

Através das minhas luvas de látex sinto o frio do animal, debaixo da sua pele suave. Apetece-me encostar a cara ao corpo dele, como faço com os meus gatos. Cada vez que avanço uns centímetros com o bisturi, tenho de pôr serradura na ferida. Absorve a humidade, o sangue, o muco.

Faço pressão a mais, claro. Rompo o peritoneu e as tripas saem cá para fora pelo corte fininho. Não há problema, tenho simplesmente de continuar.
Tenho de libertá-la do seu casaquinho. Separar as patas das ancas, com uma tesoura. Os ossos fazem um barulho parecido com uma braçadeira de plástico: sólidos, duros, até que de repente cedem. Quando chego ao crânio, tenho de agarrar novamente a tesoura para cortar muito cuidadosamente a pele junto dos olhos. O cérebro é que tenho de o tirar com uma pinça. Olho fixamente para as placas do teto e tento continuar a respirar tranquilamente. Não consigo olhar para a imundície cor-de-rosa claro que escorre pelo lado de trás.

À tarde há um cheiro na sala. Não de podridão, nem de carne. Tem algo de esterilizado, com uma ponta de uma dor antiga. É assim que cheira a morte, penso para comigo. Tiro a pele solta do recipiente com os produtos químicos e viro-a do avesso. Vou-me sentar no banco à frente da máquina de escovar, carrego no pedal com o pé e ponho o lado interior da toupeira contra a roda de escovar que gira como louca.

– Muito bem – diz o senhor Raposo. – Trata de tirar toda a carne, mesmo nos cantos mais escondidos. Estás a ver, aí junto à pata?...

Exatamente.


Umas semanas depois daquela noite na Urgência tive de voltar ao hospital. Uma consulta de ginecologia. O meu hímen era demasiado apertado. Tinham de cortá-lo, senão iria continuar a dar-me problemas. Doeu só um bocadinho. A seguir deixaram-me escolher um presente na loja dos brinquedos. Escolhi um moinho vermelho, que prendi no parapeito da janela aberta. Durante anos contava às pessoas que perdi a virgindade no hospital, com uma tesoura. Mais fácil assim, ria. Não tinha de escolher aquele ser especial que iria rasgar-me, já estava resolvido. Clinicamente e limpo.


Como muitos artistas, J. Balvin dividiu-se em dois. Por um lado, a estrela mundial, um artista de êxito, rodeado de mulheres, com as roupas mais caras, as motas e os speedboats. Do outro lado está o José, um homem sombrio que às vezes não sai da cama durante vários dias. Um e outro têm pouco em comum. A voz é igual e estão no mesmo corpo. Na mesma cabeça.


Não é assim tão fácil matar alguma coisa e fazer com que fique morta. Sem darmos por isso aparecem os vermes, o corpo começa a apodrecer, continua a crescer e a respirar. A toupeira tem de ter o mesmo aspeto que teria se tivesse acabado de sair de um buraco na terra, mas tem de estar limpa como uma boneca de plástico. Precisa de um novo recheio, feito de serradura e de arame. Com o lápis desenha-se os contornos, para ficar com as dimensões certas.

Empurra-se o arame com o barro para dentro do crânio e depois torce-se o arame através do molde. Enfia-se a pele à volta como se fosse uma fronha apertada. Fecha-se o buraco cozendo-o com fio dental. Quando o animal está completamente empalhado, fixa-se as partes soltas com alfinetes: as mãos, os pés e o rabo. O que seca, encolhe.

Acaricio com a minha mão a pele de veludo da minha toupeira. El mundo nos quiere, nos quiere, me quiere a mí. O meu braço tem o comprimento certo hoje. Através dos auscultadores à volta do meu pescoço vibra o dembow: ¿Y dónde está mi gente?

More by Lut Caenen

Uma vida a meio

Casablanca, 1954 Ela filtra o ruído das crianças a brincar lá fora e todos os dias guarda alguns sons aos quais se agarra obstinadamente. Colhe os poucos sons que penetram através das paredes. Passados alguns meses já conhece os vizinhos todos, embora nunca saia do quarto. Sabe que estão sempre a aparecer credores em casa dos vizinhos do lado, mas não adianta porque o homem não quer pagar. «Nem que me arranquem primeiro os órgãos do corpo e me matem depois» é o que o ouve dizer à mulher depois de os credores saírem. Quando ouve estas coisas tem a sensação de ser um elo na história e nos segre...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Aya Sabi

O retrato

A casa tinha uma porta de carvalho e uma fachada imponente. Não havia nomes na campainha. David demorou um pouco a descer e eu fui olhando a rua à minha volta. Era calma e branca, não se comparava com o bairro ao pé do canal onde a Sam e eu morávamos. Eu oscilava entre o devaneio e a irritação, como me acontecia muitas vezes quando era confrontada com coisas que não me podia permitir. Ele abriu a porta e sorriu-me. Tinha a camisa aberta. Eu subi as escadas atrás dele e fui novamente envolvida pelo cheiro dele: nozes e terebintina. O atelier estava tão desarrumado como da outra vez, mas havia...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Hannah Roels

Não quero ser um cão

Escrevo no teclado: «PÔR FIM A UM DESGOSTO DE AMOR». Vejo histórias de pessoas mas não quero histórias. Quero soluções, não quero compaixão. Isto tem de parar agora. «TRANSFORMAÇÃO», escrevo. O Google diz que há transformação na matemática e na genética. Opto pela segunda e com isto faço a minha primeira escolha. Estou farta deste corpo que já foi beijado por demasiadas pessoas, que talvez até esteja estragado. Tenho sido muito imprudente com ele, demasiado descomprometida, tem de acabar, tem de ser outro e melhor. Transformação genética. «Cura com sumos» aparece no ecrã. «Transforma-te numa v...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Alma Mathijsen

Em casa

O moinho, o caminho para o rio, o poço, os cavalos, as vacas e o trigo. Os baldes rachados cheios de tomates vermelho vivos, os boiões com as tampas bem apertadas cheios de legumes em pickles para o inverno. O estreito rio Severski Don, que alinha os campos todos, que empurra a Rússia contra a Ucrânia, que mantém o mapa unido, da mesma maneira que o meu bisavô Nikolaj cose os casacos com agulha e linha. O vento nas velas do moinho, as meninas do komsomol na praça central da aldeia. Dançam. De braço dado mantêm-se em equilíbrio inclinando o corpo para o lado e elevam-se do chão exatamente com a...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Lisa Weeda

Linguado

Flutuo com a cara dentro da água, sem me mexer. Não chamar a atenção, não gastar energia. Simplesmente boiar. Expirar lentamente, muito lentamente. Pequenas bolhas que me fazem cócegas nas faces quando sobem. No último momento o meu corpo vai estremecer, a barriga vai encolher-se para forçar a boca a abrir-se e, nesse momento, vou levantar resoluta e calmamente a cabeça para fora da água e engolir uma grande golfada de ar. Ninguém dirá «72 segundos!» É um talento que não nos leva a lado nenhum na vida. Quando muito, mais perto de nós próprios. Estou sentada no fundo da piscina e olho para ...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Nikki Dekker

Fios

A procura não começa de forma consciente. Sinto-me ligada a ela de uma forma perturbadora, inexplicável, e o seu desaparecimento deixa-me sozinha frente às minhas interrogações. Ao acordar pergunto-me onde dormirá e como vive e continuo a pensar nela, masturbando-me doce e suavemente entre os lençóis enquanto olho para as nuvens pela janela basculante. Quando passo pelas barracas de fruta no nosso bairro, vou tocando nas laranjas com as pontas dos dedos, até que encontro uma que me lembra a sua pele, uma com os poros perfeitos. Aterrei nas suas aulas de yoga devido às minhas constantes dores ...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Hannah Roels

Todas as pessoas se tornam irmãos

Quando vi o Andrei afastar-se, comecei a gostar dele. Vi a sua mochila preta a abarrotar que ele transportava como um escudo sobre as costas. A mochila estava tão cheia que se percebia logo que ele não estava a caminho de nada, que não ia a lado nenhum. Se tivesse ido para as montanhas assim, a mochila ia desequilibrá-lo, podia puxá-lo para trás, e lançá-lo no abismo. Os fechos éclair da mochila estavam velhos e parecia que iam rebentar a qualquer momento. Eu imaginava que a mochila ia abrir-se de repente, como um airbag, uma almofada de ar que começava a crescer, cada vez maior, e que se tran...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Yelena Schmitz

A evolução de um dente do siso

Mais 47 noites O assistente do dentista tira o gancho da minha boca. – Está a ver isto? – pergunta quase com orgulho. O gancho está coberto com uma camada de saliva acinzentada. – Isto saiu da bolsa. É uma palavra estranha para designar um buraco entre a gengiva e um dente do siso. Uma bolsa parece uma coisa grande, onde se pode guardar chaves, e talvez até gel para as mãos ou um telemóvel. Tudo o que está dentro da minha bolsa são restos de comida triturados com alguns meses. O dentista aparece pouco depois e aponta para o meu maxilar no ecrã do computador. O dente do siso inferior do ...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Alma Mathijsen

Está tudo bem

Ela leva a sua máquina de café consigo. Ela não sabe quem é. No entanto, sabe, sim, que é uma mulher com uma máquina de café expresso da marca De’Longhi Magnifica S ECAM20.110.B totalmente automática. Preta e cinzenta. Porque já não sabe mais nada, todos os pormenores são importantes. De manhã, assim que a máquina começa a moer os grãos de café com o seu ruído infernal, ela fica logo acordada – e os vizinhos também. Comprou a máquina em segunda mão no Coolblue e, durante quatro dias, passou as manhãs à espera dela, junto à janela. Ao mesmo tempo que fazia no site, de cinco em cinco minutos,...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Aya Sabi

Calcário

Ora, está visto que leva muito tempo para uma cabeça de chuveiro ficar entupida com calcário. Agora que me balanço aqui, com o tubo do chuveiro enrolado à volta do pescoço, meio pendurado no corredor, meio pendurado por cima das escadas, penso: se todos os meus amigos tivessem visto a casa de banho, tinham percebido logo. Se todos tivessem subido uma única vez ao andar de cima, como fez a Ema naquela tarde, teriam olhado para a cabeça de chuveiro, teriam aberto e fechado a torneira, teriam visto a divisória de vidro calcificada do duche, teriam reparado nos pelos da barba feita à pressa no lav...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Lisa Weeda
More in PT

Esmeralda da depressão

ESMERALDA Velas, em vez de candeeiros. Baldes, em vez de bidés. Abortos acidentais, legais e com fartura. Era a Idade Média e dava-se mais um parto caseiro. Feliz, nasceu luz e tratava-se da primeira menina com olhos azuis. A primeira vez, nascidos na terra, por debaixo do céu celeste, oculares tons do que está por cima, e não por baixo. O primeiro milagre da estética, os olhos castanhos e/ou pretos do reino nunca tinham visto nada assim. A senhora veio à rua. Trazia hortaliças biológicas numa mão, o recém-nascido na outra. Queria chegar à Igreja para mostrar aquilo, talvez o padre soubess...
Written in PT by Luis Brito

Estação de tratamento

Vagueava defronte de um aglomerado de dormitórios do estaleiro, esfregando as suas mãos frias. Ao longe, dois corvos-marinhos cintilavam por cima do rio. Pouco depois, ela começou a olhar em todas as direções e a verificar a mensagem de texto que chegara ontem. “Olá Petra, ação ETAR amanhã às oito. Encontro frente à ponte junto do aglomerado. A.” Ela leu-o mais três vezes antes de a luz do visor se apagar. A antiga e a nova estação de tratamento que partilhavam os resíduos vindos de toda a cidade ficavam uma atrás da outra na ilha, tal como governadores do rio. Enquanto a mais antiga se ergui...
Translated from CZ to PT by Stepanka Lichtblau
Written in CZ by Anna Háblová

Notas sobre a vida de Frances Donnel

Prólogo Em 1945, Frances Donnell, escritora e conhecida criadora de aves, nasceu nos Estados Unidos. Em 1983, fingiu morrer de lúpus, doença que a afligia desde a sua juventude. Meses depois da sua tentativa, descobriu-se que tinha sido tudo um boato. Após uma pequena polémica, a que chegaremos no momento oportuno, Frances permaneceu no anonimato durante várias décadas. Já no século XXI, chegou a Espanha com a dureza da doença às costas, pois aquela não tinha deixado de crescer dentro de si. Costumava dizer que tinha abandonado o seu país no momento em que se tornara demasiado velha para sent...
Translated from ES to PT by Miguel Martins
Written in ES by Adriana Murad Konings

Está tudo bem

Ela leva a sua máquina de café consigo. Ela não sabe quem é. No entanto, sabe, sim, que é uma mulher com uma máquina de café expresso da marca De’Longhi Magnifica S ECAM20.110.B totalmente automática. Preta e cinzenta. Porque já não sabe mais nada, todos os pormenores são importantes. De manhã, assim que a máquina começa a moer os grãos de café com o seu ruído infernal, ela fica logo acordada – e os vizinhos também. Comprou a máquina em segunda mão no Coolblue e, durante quatro dias, passou as manhãs à espera dela, junto à janela. Ao mesmo tempo que fazia no site, de cinco em cinco minutos,...
Translated from NL to PT by Lut Caenen
Written in NL by Aya Sabi

Dicionário do Recluso

O Dicionário do Recluso encerra as vozes e as histórias de homens que se encontram detidos na cadeia de Turim, Estabelecimento Prisional Lorusso e Cutugno, Ala V do Pavilhão C, destinada aos “presos protegidos”. Nasce de um laboratório de escrita realizado no interior da prisão durante dois anos. Todos nós sabemos o que querem dizer “casa”, “inverno”, “amor”, e o seu significado é absoluto. Mas na cadeia o significado das palavras muda, e essa mudança nasce do espaço: lá dentro só existe o dentro, e as palavras tornam-se pré-históricas. Quer isto dizer que é como se estivessem paradas num tem...
Translated from IT to PT by Vasco Gato
Written in IT by Sara Micello

Alguns meses mais tarde

12 de agosto  «Mohamad, daqui a meia hora, esteja perto do telefone. Acho que a encontrei!» Salto da cama num empurrão, visto-me abstraído o mais rápido possível e saio da pensão. Rápido. Como se fosse diferente chegar a casa cinco minutos mais cedo ou mais tarde. Quase corro, descendo a ladeira na direção do porto, ali entre o bairro judeu de Hardara Carmel e o outrora palestiniano de Wadi Salib. Porém, ouço a serra que provavelmente corta o ferro e as galinhas e os galos. Incrível. O cheiro a fazenda no meio da cidade que quer apagar a sua história e ser moderna. Como se regressasse ao ano...
Translated from SL to PT by Barbara Jursic
Written in SL by Andraž Rožman