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Original text "Timpul e un cerc" written in RO by Andrei Crăciun,
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Published in edition #1 2017-2019

O tempo é um circo

Translated from RO to PT by Simion Doru Cristea
Written in RO by Andrei Crăciun

De madrugada, sonhou com um crime cometido sob uma amendoeira e quatro bilhetes de lotaria, todos sem prémio. Era domingo.
No sonho, o jovem médico chorou e despertou com as bochechas húmidas, abraçado por uma tristeza púrpura. Come sem apetite, veste-se de luto e espera pelo telefonema que deveria confirmar quem morreu nessa noite.
O seu avô nascera perto do início do século XX num mundo demasiado longínquo para que as pessoas tivessem mantido algumas fotografias dele.
O pai do seu avô tinha falecido trinta anos antes do jovem médico nascer. Ele vinha de um tempo ainda mais antigo, quando os homens montavam a cavalo e terminavam a vida nos cruzamentos com uma faca espetada honestamente no coração ou, pelo contrário, com uma faca serpenteando, covardemente, entre as omoplatas. Porém, ele não terminou assim: morreu de cancro, como um qualquer. Não tinha nenhuma lembrança comum.
Ainda não eram oito horas quando a mãe do jovem médico ligou:
— Morreu o avô, disse-lhe.
— Sei, respondeu-lhe.
— Como sabes?
— Foi-me revelado no sonho.
No terceiro dia, o jovem doutor levou o seu avô para a campa e quem reparasse nos seus olhos poderia ver ali a morte de todos os homens.
O jovem médico seguia prostrado atrás do caixão, com o coração gelado sob o sol que incendiava todo o céu – e o céu era agora malva.
Arrastava-se atrás do caixão e pensava em todos os mortos da sua família que tinham sido engolidos pela terra deste país que ele odiava. Pensava no irmão da sua mãe. O seu tio, que fora um homem deslumbrantemente belo, enlouqueceu, levou-o para o manicómio e lá, numa noite, roubou um bidon de gasolina do escritório do diretor adjunto, despiu-se, despejou a gasolina pela cabeça e deitou fogo sobre ele próprio, correndo no pátio com uma tocha na mão. Os loucos olhavam-no por trás das suas janelas balaustradas, mas tudo o que puderam fazer foi uivar. Ninguém lhes deu atenção – quem ouve os loucos?
E o corpo sublime do meu tio ardeu até não restar mais do que um inútil montão de cinza.
O jovem médico pensou para si que o tempo não é mais do que um circo e que num belo dia um outro parente seu derramaria gasolina pela cabeça e pegaria fogo no pátio interior do manicómio.
Quando tinha dezassete anos, o seu avô alistou-se no Partido Comunista. O jovem médico não encontrou outra desculpa senão a de ser judeu (embora tivesse recebido à nascença um nome turco).
Um miúdo judeu e sonhador, de nariz adunco e olhos grandes e negros que viam tudo e não esqueciam nada. Foi-lhe prometido um futuro de ouro e ele era tão ingénuo que acreditou e se tornou um fanático de Marx.
Quando tinha vinte anos e era um brilhante aluno de matemática, o seu avô embebedou-se como um porco num chá dançante, arruinando a sua vida. Bêbedo, subiu para uma estátua de Lenine. 
Não esbofeteou o profeta do Oriente, beijou-o em ambas as faces, como a um camarada, como a um irmão, como a um Deus um pouco menor que pode ser sempre beijado nas faces. 
E foram os seus camaradas da faculdade e dos copos que o denunciaram. Foi expulso do Partido e da Universidade e condenado por esta escandalosa intimidade. Como te atreves a beijar as faces de Lenine tornadas pedra?
Libertaram-no oito meses após e permitiram-lhe frequentar um curso técnico. E assim o meu avô tornou-se canalizador.
Com um registo criminal como o dele, não poderia ter esperança, mas o país quis distanciar-se da União Soviética e deste modo também ele foi reavaliado e tornou-se canalizador de uma unidade militar.
Nesta mesma unidade militar o Ditador encontrou o seu fim. O jovem médico tinha vivido a infância no tempo do Ditador, recitado poesias ao Ditador, tinha aprendido pelos manuais escolares que tudo começava com o retrato do Ditador (em que – como Van Gogh – não se via mais do que uma simples orelha, e esta estilizada, pois o Ditador era também um pouco orelhudo).
O seu avô, canalizador, viu o Ditador e a sua esposa, a Ditadora, derrubados junto ao muro da unidade militar, os corpos crivados de balas. Assistiu à execução, como um espanhol ocasional do período da Inquisição, como um comerciante francês no tempo das Teorias Jacobinas. 
Antes de ser fuzilado, o Ditador trauteou a Internacional e isso, contava o seu avô, o canalizador, emocionou-o, sentiu um peso no coração, embora não tivesse nenhum motivo para lamentar a morte do Ditador e do regime comunista. 
Ou talvez ele, com a sua mente de matemático condenado à prisão e mais tarde a um mero trabalho físico, por ter beijado a estátua de Lenine, nunca poderia odiar os comunistas. 
Assim que começou a correr sangue do Ditador, a neve irrompeu. E o seu avô viu como caía neve do céu e como esta se tornou vermelha com o sangue do Ditador, depois sobre o seu olhar caiu uma neblina profunda e não conseguiu ver mais nada.
Naquele tempo o jovem médico era aluno da escola primária. Nessa noite, pela primeira vez chegou – também no seu prédio proletário – o Pai Natal. Trouxe-lhe um avião de lata que, embora tivesse asas, não podia elevar-se. Encontrou-o sob uma árvore artificial onde estavam suspensos papéis coloridos que imitavam embrulhos de bombons. Papéis coloridos como cortinas no vidro. Não viu o Pai Natal, mas outras crianças testemunharam que o Pai Natal era anão.
Muito mais tarde todos compreenderam que aquele que os proletários tinham caracterizado apressadamente, escondendo-o por baixo de umas barbas de algodão (algodão que se usava nas partes íntimas das camaradas de trabalho e de vida dos proletários), não era mais do que o seu vizinho anão do rés-do-chão.
E neste momento o anão do rés-do-chão e as embalagens daqueles bombons inexistentes correm na mente do jovem médico e ali se misturam com o sangue do Ditador. 
O Ditador tinha nascido filho de camponês, cresceu quase analfabeto, foi aprendiz de sapateiro na Grande Cidade, os comunistas viram a sua obstinação e mandaram-no distribuir manifestos e fazer pequenas comissões, foi feito prisioneiro aos quinze anos e ali aprendeu junto dos grandes comunistas. Aprendeu a jogar xadrez, a sacrificar os peões e a esperar o erro do adversário. Ali aprendeu igualmente a astúcia.
O Ditador escalou a crista do Poder e não a largou até cair junto do muro da unidade militar sob os olhares do avô do jovem médico, que então não era mais que um aluno de escola primária que nunca tinha visto o Pai Natal.
O Ditador passeou no coche da Rainha de Inglaterra e deste passeio nasceu a lenda que o Ditador, desafiando todos os protocolos, teria dado um peido no coche, colocando as culpas no cavalo da Rainha. A lenda circulou durante uma década inteira, dita em sussurro, após prolongadas precauções relativamente ao recetor da informação que poderia ser um agente da Polícia Secreta, e bastantes vezes assim o era.
Mas as pessoas gostavam muito desta história, que não precisava de ser verdadeira para que acreditassem, e colocavam em risco o trabalho, a liberdade e as suas vidas apenas para não deixarem que se perdesse.
O Ditador sobreviveu à queda de um avião em Moscovo e a um número incerto de atentados contra a sua vida. Foi jovem como os outros e, sendo jovem, fuzilou com as suas próprias mãos camponeses que não queriam perder a terra em favor do Partido. Sabia como ser cruel. 
Embora gago, fazia discursos manhosos com os quais embebedava as pessoas com ilusões, e estas aclamavam-no e até o amavam, mas finalmente o poder levou-o a perder a razão, como acontece com todos aqueles que não têm os ombros preparados para um tal carrego.
O Ditador explorou sem dó o seu poder, encheu os estádios com corpos de jovens do seu país e os jovens escreveram o seu nome com os corpos deles. E o medo, o frio e a fome dominaram no reino do antigo aprendiz de sapateiro.
As pessoas procuravam evadir-se e atravessavam o Grande Rio, sob uma chuva de balas que não parava, nem mesmo de noite. O jovem médico ouviu também a lenda de um aluno da escola de aviação que fugiu repentinamente de avião no percurso de um exame e não parou senão numa autoestrada de um império asiático. 
O Ditador perseguiu mesmo os recém-nascidos, derrubou igrejas e mutilou a Grande Cidade, talhando-a segundo a sua visão – a Grande Cidade tornou-se a soma das fantasmagorias de um faraó demente.
Ao jovem médico trepidava na mão o corpo enorme de pirilampos de um telemóvel de última geração. Não teria de responder ao apelo naquele exato momento, mas a verdade é que tinha vontade de responder a uma outra chamada – a chamada dos jornais do mundo, todos cativos na Rede Única. Tinha este impulso porque sabia exatamente o que iria encontrar nas suas páginas: os orçamentos das guerras em dia, aldeias queimadas, bailes e saltimbancos, outros ditadores e os seus muros, a mesma comédia com a mesma tragédia, desde sempre, a mesma tragicomédia, que não perdoa ninguém, nunca.
As pessoas não gostam de grandes surpresas. O tempo é um circo, de outro modo nada poderia ser suportado, pensou, uma vez mais, o jovem médico. 
Do caixão, o seu avô parecia atirar-lhe um sorriso de horror, que poderia significar que a sua alma já subira ao céu e constatara que Deus não existe ou poderia não significar nada.
O seu avô nasceu judeu, tinha um nome turco, na juventude proclamava-se ateu comunista, mas no final da vida começou a temer o Deus do Novo Testamento e converteu-se, sem formalidades, ao cristianismo. Era talvez injusto que assim acontecesse, mas também o Deus do Novo Testamento sabia ser injusto, e assim o avô do jovem médico tinha morrido sem confissão nem comunhão. 
Teve um enfarte de miocárdio durante o sono, encontraram a sua cara dominada por um esgar e, por razões estéticas, esforçaram-se por disfarçá-lo, mas sem sucesso. Não, o seu avô não lhe sorria. Era apenas um poeta que perdera a lucidez no caminho, poderia imaginar os seus olhos fechados mostrando um convite à dança.
O jovem médico não era um poeta que se perdera no caminho da lucidez. Colocou o telemóvel no bolso das calças e continuou a avançar, olhando fixamente a biqueira dos sapatos negros.
A dor que parecia envolver o grupo parecia não ser verdadeira. No caminho, depararam-se com um circo que se mudava de uma aldeia para outra e não poucos sorriram ao ver o circo e lembrando-se então da infância, onde a morte não existia.
Mas, se querem saber, das pessoas verdadeiramente velhas, como era o avô do jovem médico, ninguém tem pena. São velhos demais para serem úteis para os vivos, apenas devem deixar as suas heranças – o mundo deles já não é este, a maioria deles já apodreceu e espera apenas que lhes façam o favor de os enterrar. 
O jovem médico sabia que participava mecanicamente num ritual quase ridículo, mas fazia um esforço para parecer muito afetado. Mas não estava.
Pensava naqueles que tinham morrido antes, mas fazia-o porque sabia bem que o homem (qualquer homem) é uma soma de nervos, sangue e ossos e um dia o filho do seu filho ainda não nascido irá atrás do seu caixão, levando toda esta charada mais longe, agora e sempre.
Depois de um padre obeso ter cantado em homenagem à eterna memória do defunto, um coro de velhinhas começou a carpir, carpindo ele também, de facto, a própria morte. Um gato sem um olho e com um amarelo pulou entre duas cruzes do cemitério e o jovem médico pensou de novo que tudo isto aconteceu já e vai acontecer de novo, de novo e de novo e de novo.
E que Deus vai piscar o olho uma vez ao filho do seu filho não nascido que sacrificará para o jovem médico uma vitela do futuro e vai contratar, para o funeral, um grupo de violinistas populares do futuro e os violinistas vão tocar aquela música longínqua e o pó vai cobri-lo também a ele e a cova vai se abrir sob a promessa que nunca o vão esquecer, mas com certeza, que isto não vai acontecer, e o jovem médico vai ser também esquecido em breve, como são esquecidas as pessoas, menos os santos, os grandes criminosos, os reis e as suas concubinas. 
O jovem médico afastou-se alguns passos da terra que engolia o avô, depois afastou-se mais, depois saiu, sem ser visto, pela porta do cemitério e encontrou uma cigana, e a cigana pediu-lhe uma esmola e ele tirou do bolso um punhado de moedas e pôs na mão da cigana, e então começou a chover a ambos levantaram os olhares para ver a fonte da chuva.
E após alguns momentos, ou talvez algumas eternidades, o jovem médico afastou-se mais e não mais olhou para trás, assim não teve como ver que o gato sem um olho e com um olho amarelo vinha sempre atrás, como uma sombra.

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