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Original text "De zon als hij valt" written in NL by Joost Oomen,
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Published in edition #1 2017-2019

O Sol quando Cai

Translated from NL to PT by Xénon Cruz
Written in NL by Joost Oomen

Na manhã de 11 de julho de 1978, parte em direção a Barcelona um camião  com um carregamento de propeno líquido. O camião vem de uma  pequena cidade na Catalunha e é conduzido por um motorista que, no  meio da sua cara brilhante, usa um grosso bigode. Já trabalha há vinte anos  para a mesma empresa, com o mesmo camião, e conhece a rede rodoviária  de Espanha de cor. Para evitar portagens, escolhe sempre as estradas  interiores. 

As botijas de gás não foram feitas para ficar muito tempo ao sol, e uma  enorme cisterna com vinte e cinco toneladas de propeno, apesar de só  poder conter dezanove, muito menos. Pode ser que rebente um pneu ao  camião, fazendo que este se esbardalhe contra o muro que rodeia o parque  de campismo, capote, deslize sobre o terreno até encontrar um poço de  água feito de betão e nele embata com força suficiente para causar uma  fuga na cisterna. Pode ser que a fuga aconteça antes e o motorista pare o  camião junto do parque de campismo para a inspecionar. Seja como for, o  certo é que uma nuvem de propeno escapa da cisterna e se levanta sobre o  parque de campismo Los Alfaques, bordejando em busca de um foco de incêndio. 

A grande nuvem branca de propeno que paira sobre o terreno do parque  de campismo chama imediatamente a atenção dos muitos campistas que se  apinham à volta do camião-cisterna rasgado ao meio para observar o  fenómeno. O gás encontra a sua fonte de ignição a nordeste, junto à  discoteca do parque, onde um jovem nos seus vinte e poucos anos fuma  um cigarro. No momento em que a neblina se incendeia, o gás  incandescente viaja, numa fração de segundo e a toda a velocidade, de volta  para o camião. A língua de fogo infiltra-se na cisterna e o propeno  remanescente explode num estrondo ensurdecedor. Uma bola de fogo da  altura de seis andares cerca metade do terreno do parque. Aqueles que não  são diretamente atingidos pelos destroços ardentes do camião que voam  pelos ares são torrados pela intensa onda de calor que envolve em chamas  tudo o que encontra no seu caminho. Botijas de campingaz explodem,  carros entram em chamas, as pessoas são aprisionadas em tendas e rulotes a  arder. Um pai atira o filho para dentro de uma arca congeladora na tentativa de o proteger, mas a temperatura da onda de calor é tão elevada  que o miúdo metido no seu forno privado acaba por lhe sucumbir. A  maioria das vítimas tem apenas vestida roupa de praia.
A única coisa que resta do motorista é um pulso queimado, ao qual está  agarrado um relógio parado, mas ainda intacto. O relógio marca 14h36, o  momento em que ocorreu a explosão. 

II 

Eu sou um pulso. Um pedaço de osso feito do cálcio mais duro, revestido  por uma tira de carne seca e pele quebradiça. Encontro-me no quarto de  uma rapariga no Sul de Espanha. Ela pôs-me em cima de uma cómoda, ao  lado de um despertador com ponteiros fosforescentes e uma estatueta de  plástico de um estrunfe. À noite, a luz pálida esverdeada dos ponteiros cai sobre a minha pele. O estrunfe tem um embrulho nas mãos e eu não sei o  que está dentro do embrulho. 

Há algum tempo eu não era um pulso que não estava preso a nada, mas  fazia parte de um motorista de camiões embigodado. Na parte da frente da  cabina, ele tinha construído um pequeno altar. Contra o para-brisas estava  encostada uma chapa de matrícula onde tinha sido estampado o nome da  filha. Encostado à matrícula estava um canivete velho da marca Opinel. Em  criança, tinha-se cortado num dedo com o canivete ao afiar um pau, a  cicatriz ainda hoje seria visível no dedo, caso eu ainda o tivesse. Por causa  do sangue coagulado a lâmina fechada do canivete tinha ficado pegajosa e  só com muita dificuldade era ainda possível abri-lo. Há muito que ele já  não o usava. Ainda assim, se o tivesse perdido, teria batido com as mãos na  roupa em pânico à sua procura. Teria virado a cabina de pernas para o ar,  livrando-se de almofadas e jornais, o assento revestido e tudo o que não  estivesse preso ao camião, e se mesmo assim ainda não tivesse encontrado o  canivete, teria voltado atrás centenas de quilómetros, parando em cada  parque de estacionamento onde pudesse ter estado e ter-se-ia rastejado  sobre o asfalto à procura do seu velho e inutilizável canivete. 

Ainda estavam mais coisas encostadas à parte de trás da chapa de matrícula.  Uma colher de chá de prata que ele tinha encontrado uma vez ao lado do  lavatório de um posto de gasolina. Um porta-chaves em plástico duro com  a forma de casca de amendoim. Uma nota de cinco dólares e uma chave de  porcas com o cabo partido ao meio. O motorista apanhava todas estas coisas das bermas do asfalto em que conduzia dia após dia. Tal como para o  canivete, teria voltado atrás quilómetros e quilómetros, se perdesse  qualquer uma destas relíquias. Não porque ainda lhe viessem a ser úteis,  mas simplesmente porque faziam parte do seu altar. 

E agora estou eu mesmo no meio de um altar. Ao meu lado, o despertador  com ponteiros fosforescentes e, do outro lado, o estrunfe com o embrulho. 
E no mundo inteiro existem milhares de milhões destes altarzinhos,  montados em parapeitos, estantes de livros, caixotins ou em cima de  televisões. E todos aqueles frasquinhos com dentes de leite, pedrinhas  alisadas, ovos ocos, caixinhas de música, penas de coruja, postais, conchas,  pulseiras, sapatos de criança, bonecos de Playmobil e frutas de plástico  formam juntos uma gigantesca rede à qual milhões de pessoas em todo o  mundo conferem enorme valor. A maior crença do mundo é depositada  em milhões de bugigangas. E nós os dois, querido olho, somos rei e rainha  deles todos. 

III 

É fim de tarde e o rapaz está a ir a pé para a aldeia. O pai mandou-o ir lá,  porque circulam histórias sobre cabras selvagens deixadas para trás pelos  terroristas. Na quinta todos viram os penachos de fumo por cima da aldeia  em chamas.  
As ruas da aldeia ficaram pretas do fogo. Entre as cabanas encontram-se  animais mortos, fétidos, ainda com um pouco de carne nos corpos. As  cabras, e cabras famintas mais ainda, têm tendência a esconder-se em toda a  parte. O rapaz tem por isso de entrar em cada casa, abrir cada armário. Mas  o rapaz não se atreve a olhar para dentro das cabanas, com medo de encontrar uma pessoa morta. Anda de um lado para o outro pelos  caminhos arenosos, encosta-se ao poço de água, fuma um cigarro à saída da  aldeia. Em meia hora de buscas não conseguiu encontrar uma única cabra. 

O rapaz está prestes a voltar para casa, quando repara do lado de uma das  cabanas desfeitas num grande armário antigo em madeira. É um modelo  europeu feito de madeira de carvalho pesada e mesmo estando chamuscado  de uma ponta a outra, o armário continua de pé. Cautelosamente, o rapaz  aproxima-se dele. O móvel em madeira tem mais meio metro de altura que  o rapaz. Ele abre o armário. As dobradiças estão secas e rangem com a areia. 
Deitado na parte de baixo do grande armário em madeira está um bode  jovem, que com muita dificuldade tenta manter os olhos abertos. O bode  está magro e o pelo fosco dá a entender ao rapaz que ele já não bebe há dias.  Areia e mosquitos cobrem-lhe grande parte do corpo. O que mais chama a  atenção, porém, é o que o animal tem na cabeça, porque preso entre os dois  cornos está um olho de vidro. O rapaz dá uma carícia ao animal, desde o  pescoço até à cauda, para o acalmar, depois envolve a cabeça do bode com a  mão direita e com a outra mão dá um puxão ao olho de vidro. O olho  solta-se bruscamente e rebola até ao canto do armário. O rapaz tateia o canto com a mão, encontra o olho de vidro e enfia-o no bolso. Pendura o bode fraco ao pescoço e volta apressadamente para casa. 
De volta a casa, o rapaz põe o bode no campo vedado ao lado da quinta. O  animal é acolhido pelo fato de cabras e, depois de um período de recobro,  começa a produzir descendência.  
O rapaz vai até ao seu quarto, olha para olho, para o norte, para o olho. 

IV 

A água é importante para um olho de vidro. Se um olho de vidro não for  guardado num meio líquido, acumula pó e esse pó entra na órbita quando  se põe o olho. O meu dono anterior punha-me por isso num copo de long  drink com água, nas alturas em que não me usava. Eu ficava ali no fundo  do copo com a minha pupila virada para baixo e olhava a noite inteira para a base do copo. 
O meu novo dono é um rapaz com dois olhos saudáveis e por isso não me  usa. Estou no parapeito do quarto de dormir do rapaz, sem água. O pó  agarra-se a mim. 
Esta noite olhei lá para fora, para a duna de areia que se estende em frente à  quinta. A duna fica iluminada de um laranja metálico pelas lâmpadas que  foram penduradas para afugentar os animais selvagens dos prados das  cabras. Um oásis de luz num deserto de resto escuro como um prego.  Enquanto olhava, uma cobra deslizou para dentro da luz. Desenhava com a cauda um rasto ondulante na areia. Era uma linha fina e subtil, mas, devido  às sombras carregadas que a luz laranja criava, conseguia vê-la claramente. 
Pela noite dentro, escorreram mais cobras pela duna de areia. Elas  desenhavam rastos novos, paralelos ao primeiro, mas também  atravessando-o. Começava a parecer-se com um desenho de ondas. Feito  por uma mão pouco segura, desajeitada, se calhar até um pouco infantil.  Mas na areia vi subitamente o mar. 
Um olho de vidro não consegue chorar e por isso não se molha a si mesmo.  Um olho de vidro precisa de água. É por causa disso que o mar é especial  para um olho de vidro. Para muitos o mar é um obstáculo, uma última  barreira a ser transposta para chegar à terra prometida. Mas o mar a mim  não me incomoda. Eu quero ir para lá.
Algures durante aquela noite, o rapaz ficou atrás de mim. Também ele  olhava para a duna. Não sei se ele via a mesma coisa no rasto das cobras.  Não sei se ele também sonha com o mar. Mas o rapaz já tinha posto a mão  sobre mim, como se a qualquer momento ele me fosse agarrar para se ir  embora. 

Uma rapariga é uma rapariga, é uma rapariga, é uma rapariga. E ainda que  eu seja da opinião que o meu lugar é precisamente em Espanha a  deambular pelas avenidas com umas botas gastas de cowboy em pele branca  e uma camisa fanada, oferecendo bolo de cenoura e salsichas quentes aos  rapazes, nas últimas semanas tenho tido a sensação de que preciso de subir  a uma torre alta e deixar o meu cabelo esvoaçar ao vento para que um  príncipe árabe no seu cavalo azevichado, ambos com olhos do mesmo  negro, me possa vir tirar desta aldeia aborrida e levar-me para a praia e com  o seu ventre selvagem arrebatar-me até ser sua mulher.  
E praticamente todas as noites adormeço com a imagem de um  grande olho verde que aparece como uma Lua no céu por cima desta aldeia,  saltando a medo de um lado para o outro como se procurasse alguma coisa.  De repente o olho cai lá para baixo e rebola pelas colinas em direção ao meu  quarto. O olho rolante prende-me e conduz-me para fora da minha aldeia, que fica para trás como uma ruína esboroada e em chamas. 
Eu não tenho um homem que me leve com ele e eu própria sou uma  rapariga perigosa que tem um pulso em cima do armário e isso nem sequer  me mete medo ou nojo. A comichão nas minhas artérias é do sangue sujo  que acorda quando encosto o meu próprio pulso a este pulso encontrado.  E mesmo assim, não me sinto perdida ou perversa. 
Uma rapariga é uma rapariga, é uma rapariga, é uma rapariga. O vento nos  meus lábios ásperos grita-me que tenho de partir. O vento nas minhas  artérias grita-me que tenho de esperar.

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