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Original text "Bubblegum Blues" written in NL by Carmien Michels,
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Published in edition #1 2017-2019

Chiclete Blues

Translated from NL to PT by Xénon Cruz
Written in NL by Carmien Michels

23,40 euros. É esse o montante que figura, em algarismos verde-alface, na  registadora do guiché. Umas mãos pálidas e enrugadas colocam  cautelosamente, uma por uma, as moedas amarelas e castanhas na gaveta  do dinheiro, ao lado de uma nota de vinte euros. Logo a seguir, as mãos  fecham a pequena carteira em pele, ao mesmo tempo que uma voz  condicente de senhora emite sons apaziguadores. 
— Calma, também te vão dar um bilhete — cochicha a senhora ao  seu cão, que, tal como ela, permanece fora do alcance do nosso olhar. Quando a gaveta se volta a abrir, as moedas desapareceram e, no  lugar delas, estão agora dois bilhetes de comboio. As mãos enrugadas tiram  os bilhetes e arrumam-nos apressadamente. “Zip-zip”. 
Martha, uma senhora de 64 anos, que com o passar dos anos foi  ficando mais frágil e franzina, entra na carruagem. O yorkshire terrier que  traz por baixo do braço esquerdo parece relativamente calmo. Com a mão  que tem livre, puxa um trolley de compras atrás de si, de onde sai um ramo  de crisântemos. É dia 2 de novembro, Dia dos Mortos, altura de visitar os pais. A tarde já vai a meio, mas eles não vão a lado nenhum. 
De sobrancelhas franzidas, examina rapidamente o restante  grupinho de passageiros, o qual, para seu gosto, está a fazer demasiado  barulho. Encontra um cantinho para se sentar, no fim da carruagem. Após  providenciar o seu cão com uns auscultadores, coloca outro par sobre os  seus ouvidos. Enquanto se balanceia ao som rumorejante de cânticos  budistas meditativos, Martha vai dando festinhas ao animal sereno. 
No canto ao lado do seu, está Gaetan, um rapaz com umas pernas  compridas e um tom de pele escuro e uniforme. Dezasseis, dezassete anos  no máximo. Tem um corte de cabelo curto com um padrão serrilhado,  como aquele que usam os basquetebolistas famosos. Ele olha pela janela,  para a sua namorada que lhe está a fazer caretas na plataforma. Abana a  cabeça, olhos sorridentes. Assim que o comboio dá os primeiros  solavancos, ela começa a acenar-lhe efusivamente. Ele faz um gesto quase  inexistente com a mão, os cantos da boca subtilmente curvados para cima. 
Quando o comboio abandona a estação, Martha adormece. Volta e  meia, abre ligeiramente os olhos. Olha para o rapaz sentado ao seu lado  esquerdo a fazer bolas de chiclete cor-de-rosa, ritmicamente, como se  também ele estivesse a ouvir os cânticos. Durantes uns momentos sonha  com o filho, que em altura não devia andar muito longe da do rapaz.  Montado numa bola saltitona rosa, ele volta a sair-lhe dos pensamentos. 
Uma voz alta arranca Martha do sono. Ela vê as costas do revisor,  um homem roliço com um rabo-de-cavalo loiro preso na parte de trás do  boné e atado com um elástico cor-de-rosa. Assim que o homem se põe a — Saia da frente, minha senhora — diz o revisor. Ele procura  manter um tom frio, mas a voz falha-lhe e as mãos dele tremem. Com os  braços esticados, Martha consegue separar os dois. Ambos estão ofegantes.  Ela começa a perder a força, mas por ora mantém a posição. 
— A senhora é surda? Eu conheço o tipo dele — diz o revisor de  forma ameaçadora e volta a apontar um dedo na direção do rapaz. Gaetan  respira fundo pelo nariz. 
— Eu conheço o seu tipo — diz o rapaz lentamente, desviando com  um toque o dedo do revisor. Martha sucumbe. Sem hesitação, o revisor  volta a agarrar o rapaz. Novamente, ele tenta desprender-se e novamente  Martha tenta separá-los, mas desta vez o funcionário não cede um  milímetro. 
— Eu tive um treino decente. Sei precisamente até onde posso ir. Só quando o filho fechou a porta atrás de si de vez, é que Martha  encontrou coragem para pôr o marido fora de casa. Não comia, não saía à  rua, não falava com ninguém, semanas a fio. Um dia, o esposo destroçado  apareceu-lhe à porta de casa, segurando nos braços como oferenda um  yorkshire terrier bebé. O Floquinho pôde ficar, o marido não. Com força renovada, Martha começa a puxar o rabo-de-cavalo do  revisor, que por sua vez tenta sacudi-la de si como quem sacode uma mosca. Falha. Falha. Ela enfia os dentes no ombro dele. Falha. Acerta.  Martha perde o equilíbrio e tomba para trás. Cai em cima do cão, tentar  agarrar uma das mesinhas de apoio do comboio e bate no chão. Solta um  gemido. 
Mais à frente no corredor, ouve-se o choro de uma criança que se  agarra à perna da mãe, a qual, junto com a sua prole, observa o que está a  acontecer. O bebé que traz nos braços começa aos berros. — A senhora magoou-se? 
Gaetan ajoelha-se, tenta ajudá-la a levantar-se. 
Martha não lhe presta atenção e, titubeando, põe-se de pé. Em  seguida, vê o focinho do cão, amolgado. Os auscultadores saíram do sítio,  tendo rasgado uma das orelhas. Ela fita o revisor com um olhar letal, como  se fosse para o atacar a qualquer momento. Depois, como um pudim,  deixa-se afundar no assento. 
— Eu não sou racista. Só estou a fazer o meu trabalho — diz o  revisor, como se se dirigisse a um juiz imaginário. Ele não vê aquilo que  Gaetan está a ver. Os olhos do rapaz passam da mão de Martha para o cão  empalhado sobre o qual ela passa a mão uma última vez antes de o guardar  cuidadosamente no trolley. Há certas coisas que não dão para desamolgar.  Com uma expressão sombria e intensa, ela olha para fora da janela.  Baixinho e num tom monocórdico, começa a trautear.
falar ao walkie-talkie, Gaetan põe-se logo de pé. Martha aumenta o volume  da música, mas fica de olho nos dois. Mesmo com o revisor a bloquear a  passagem, o rapaz tenta passar pelo revisor e esgueirar-se do canto. — Tu não vais a lado nenhum — rosna o revisor. 
Gaetan balbucia qualquer coisa impercetível e tenta contornar o  homem. Este parece ter contado com isso e volta a empurrá-lo para o  assento. O rapaz ganha balanço e precipita-se novamente sobre o homem. — Sit down — diz o revisor. 
— Eu preciso de sair daqui — repete Gaetan, mais alto, quase a  suplicar. Os ombros de ambos tocam-se brevemente. 
O revisor empurra o rapaz para baixo com rudeza e aponta-lhe um  dedo. 
— Se me voltas a tocar — ameaçando-o. 
Martha põe instintivamente a mão à frente dos olhos do cão, que  não mostra qualquer tipo de reação face à situação. Na verdade, o cão  encontra-se tão pacífico que mais parece estar drogado, ou até morto. 
Por um breve momento, Gaetan fica sentado. Mas logo a seguir,  mergulha por baixo do braço do revisor, numa tentativa desesperada de  fuga. O revisor agarra o rapaz e segura-o contra o assento com uma chave  de braço, como se fosse uma tarefa quotidiana, prendendo firmemente o  pescoço de Gaetan, enquanto lhe pressiona a coluna com o joelho. Martha  emite sons ofegantes. 
— Tudo sob controlo — diz o revisor, sem levantar os olhos, a  ninguém em particular. 
O rapaz tenta desprender-se. 
— Não consigo respirar — geme o rapaz. 
— Nonsense — diz o revisor. 
O rapaz consegue manobrar um pouco o pescoço, por forma a  repousar o maxilar no assento. Ele procura estabelecer contacto visual com  Martha, que desvia logo o olhar, procurando na mala pela carteira. “Zip zip”. 
— Não consigo respirar — volta a gemer, desta vez em desespero. É o filho dela que está a falar. Contusões e pisaduras com dezasseis  anos saltam-lhe do corpo, como uma garrafa de plástico amarrotada que  volta à sua forma original. 
— Não se meta, minha senhora — diz o revisor espantado, quando  repara que tem uma criatura amarfanhada a puxar-lhe o braço. Martha  cerra os dentes e usa todas as reservas de força possíveis a uma senhora idosa  para soltar o rapaz. Ela consegue enfiar-se entre os dois. Gaetan levanta-se a  arfar, o corpo dele completamente tenso, os olhos injetados de sangue.  Martha ainda não soltou uma palavra. 

— A senhora sente-se bem? Posso ajudá-la com alguma coisa? —  pergunta Gaetan. 
Martha abana a cabeça, como uma criança teimosa, trauteando  ininterruptamente. 
— Dói-lhe alguma coisa? 
Volta a abanar a cabeça, enquanto enterra o olhar num prado que  passa. 
O rapaz levanta-se e enfia a mão no bolso das calças. O revisor  mete-se logo em posição de combate e grita:  
— Ele tem uma navalha! 
Ao mesmo tempo, Gaetan tira do bolso um pacote de chicletes.  Agacha-se à frente de Martha e agarra-lhe a mão. 
— Quer uma chiclete? — pergunta suavemente, como se fizesse a  pergunta a uma criança. 
Martha para de trautear. Quando é que foi a última vez que ela  comeu uma chiclete? Daquela vez em que o Floquinho começou a atacar as  bolinhas cor-de-rosa que ela soprava e, depois, teve de cortar a chiclete que  lhe ficou presa na franja. Ela dirige o olhar para cima, como se pedisse  autorização a alguém para o fazer. Depois, faz que sim com a cabeça. A  chiclete que Gaetan lhe deposita na mão, ela guarda-a imediatamente, para  que ele não lha possa voltar a tirar. Em seguida, coloca os auscultadores. O  rapaz fica sentado ao lado dela. 
Quando dois seguranças entram no comboio, Martha põe a música  em pausa. O revisor e o rapaz fazem gestos agitados. Quando Gaetan  aponta na direção dela, os seguranças viram-se. De repente, todos os  olhares estão postos em si. Prontamente, ela desvia a cara para fora. 
— Com todo o respeito, mas a senhora não lhes servirá de muito —  murmura o revisor aos seguranças. — Não está boa da cabeça. Ele ameaçou  sacar de uma navalha, foi por isso que lhe tive de aplicar a chave de braço. A mulher com o bebé e a criança mete-se na conversa. 
“Zip-zip”. Martha aclara a garganta, cerra os olhos por uns  momentos, inspira fundo. 
— Encontrei o bilhete dele — diz com firmeza, enquanto mantém  erguido um dos seus próprios bilhetes. 
O grupo volta a virar-se na sua direção. 
— No chão — acrescenta. 
Petrificado, o revisor olha para ela durante dois segundos. — Não — começa a dizer. Novamente a voz falha-lhe. — Não, não. Ela passa o bilhete a Gaetan. O rapaz olha para ela sem  
compreender, como se Martha tivesse realmente ficado com o bilhete dele.

A seguir, ele inclina a cabeça para interiorizar a intenção. A expressão dele  muda. 
— Eu percebo que não seja uma profissão fácil — o rapaz diz  calmamente aos seguranças —, mas o senhor revisor reagiu de forma  completamente despropositada. 
Da boca do revisor sai um som semelhante a um pio, que é  espremido de modo pouco salubre pelas suas cordas vocais. — E agora é que vem com isso? — diz balbuciante para Martha. Martha tenta inspirar, olha para o chão. 
— Não tive oportunidade. O rapaz não conseguia respirar. O  senhor atirou-me para o chão. Floquinho — diz, recompondo-se  rapidamente —, eu só queria ajudar. 
— Não. Não! Não, não, não. Não! — diz o revisor, soltando  guinchos ao mesmo tempo, como se tivesse problemas respiratórios.  Enquanto repete a mesma palavra, senta-se, cada vez mais ofegante. A  chefe de segurança começa a falar ao walkie-talkie.  
— O seu bilhete, por favor — começa a nova revisora, quando o  comboio volta a arrancar. Também ela tem um rabo-de-cavalo loiro a sair lhe do boné. 
Martha procura o olhar do rapaz, que tira o bilhete do bolso das  calças. Ele tem um ar sério. Depois, vira-se para ela e faz-lhe um sinal com a  cabeça. Ela responde, anuindo da mesma forma. 
Num cemitério igual aos outros, ao início da noite do Dia dos  Mortos, é possível distinguir facilmente os jazigos estimados dos que foram  esquecidos. O musgo foi raspado da melhor forma que conseguiram, há  flores novas a adornar as pedras e a terra à volta é mais húmida. 
À primeira vista, o cemitério parece vazio, mas perscrutando-o uma  segunda vez, vemos ao fundo uma pequena mulher sentada em cima dos  joelhos, à frente do jazigo da família. Entre ela e a lápide jaz um buraco,  destinado aos crisântemos. O buraco é um pouco mais fundo do que o  habitual. Uma colcha felpuda aos quadradinhos cobre o solo. 
Ao fundo, o sol poente pinta o céu de laranja-rosa. Umas mãos  pálidas e enrugadas erguem um atípico yorkshire terrier. Um nariz beija  um nariz. Depois, serenamente, as mãos depositam o cão na sepultura e  dobram a colcha à sua volta. Um punhado de terra cai sobre o embrulho.  Mais um. As mãos mudam as flores de lugar e prosseguem com o monte de terra ao lado da cova. 
De vez em quando, ouve-se o eco fresco de um estalido, como o  abrir tímido de uma garrafa de champanhe. Quando a câmara se afasta em  perspetiva aérea, conseguimos ver as mãos delicadas a colocarem um círculo de pedrinhas à volta dos crisântemos. Pouco depois, vemos os  cabelos da mulher, que está a soprar uma bola de chiclete cor-de-rosa tão  grande que, em rebentando, lhe irá cobrir a cara toda.

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